“Essa é graúda”, gritou Angelito mais uma vez. Três caldeirões alinhados piscavam na tela do caça-níquel na sua frente. Era o bônus. Trinta vezes o valor da aposta. Dentre os cinco caldeirões que ele deveria escolher, optou pelo do meio. Cinco reais. Vezes trinta, 150 pilas. O final de semana estava garantido.
Éder Angelito Bombardelli é operador de empilhadeira no Supermercado Big, mas sua principal fonte de renda é o jogo. Sinuca, jogo do bicho, jogos eletrônicos, pife e pontinho – modalidades de carteados. Grande parte do seu salário é destinada à jogatina. O restante? À compra do rancho mensal e ao pagamento das 12 prestações da televisão nova da vó.
Dorácia Bombardelli, a avó do rapagão, inclusive, merece um parágrafo à parte. Com seus 86 anos, ainda mantém seu revólver calibre 22 a postos na gaveta do lado da poltrona. Não suporta futebol na frente da sua casa. A gurizada da rua sabe que bola que cai no pátio dos Bombardelli não volta. Até volta, picotada. A dona Dorácia e a gurizada são vítimas do destino: o trecho mais plaino do asfalto é justamente na frente da casa da velha. Não tem escapatória. A senhora ranzinza, que capinou o terreno até alguns atrás, era a fonte de renda do neto antes do emprego. Hoje o dinheiro para sustentar a diversão do Angelito vem da multinacional Wall-Mart.
“Sou filho de pai morto, rapaz, não erro bola nesse jogo.” Nos últimos dias, o Angelito, típico gordinho alemão, com as bochechas rochas e sem bunda, comemora as tacadas certeiras na sinuca com a invocação da morte do pai – viciado em jogo e morto pela cirrose. Campeão do Torneio de Sinuca do bar da Margarete, ele não perde a oportunidade de relembrar o título. “Tu tá jogando com o primeiro colocado, rapaz.” Nada de arrogância ou prepotência. Se vocês vissem as lágrimas nos olhos de todos na volta da mesa, saberiam que tudo não passa de grande brincadeira.
Gordo, como é chamado por causa dos mais de cem quilos que possuía até ano passado, vive da sorte e da mentira. Como nesse final de semana, pode estar sem grana. Mas, com cinco reais emprestados pela dona do bar, acerta o caldeirão certo no caça-níquel e garante a noite da mulherada – pelo menos é o que se escuta no outro dia. “E aí, gordo, pegou alguém ontem?” “Rá, com essa carinha, com esse olho azul e tomando cerveja com Red Bull, só elas estavam na minha volta.” Há quem diga que ele gastou os 150 pilas no pife no Bar do Eli.
